Quebra de paradigmas

Em tempos de Paralímpiadas, achei oportuno trazer uma discussão que busca quebrar paradigmas.Quando pensamos nestes jogos, o senso comum sempre recai em uma palavra: superação. Não discordo do fato de que para ser um atleta olímpico (ou paralímpico) é preciso quebrar barreiras, enfrentar as mais duras dificuldades e, sim, superar os próprios limites.

Entretanto, existe algo nestes discursos que me incomoda profundamente: o fato de que as pessoas usam o pretexto da superação das pessoas com deficiência como um meio para exaltarem a sua própria condição. Eu explico. O tipo de frase que me incomoda é aquela que diz: “Olhem que exemplo lindo de superação! Essa pessoa aqui tem as duas pernas amputadas e mesmo assim ganhou tal prova de atletismo. Se essa pessoa conseguiu, eu também tenho que conseguir”. A lógica implícita: “Se esta pessoa, que está em um grau de desvantagem em relação a mim, alcançou seu objetivo, é óbvio que eu também tenho que alcançá-lo”. Se estivéssemos no contexto dos estudos antropológicos, chamaríamos este pensamento de etnocêntrico, ou seja, quando tomamos a nossa condição/padrão como regra de ouro para todos os outros tipos de vivência. Só que o padrão não é nada além de uma média em que a maioria das pessoas se encaixam. Não é um padrão de excelência, nem um modelo a ser seguido. 

Outro dia assisti um vídeo no Ted de uma comediante e jornalista chamada Stella Young. Stella utiliza uma cadeira de rodas, mas insiste que este fato não a torna automaticamente uma ‘nobre inspiração para a humanidade’. O título da palestra é “Eu não sou a sua inspiração” e fala exatamente disto, da nossa tendência como sociedade em romantizar a vida das pessoas com deficiência com base em nossos próprios padrões.

E o que isso tem a ver com autismo? Muita coisa. Às vezes, quando falo que o Mateus é autista, as pessoas perguntam: “Ele é um gênio?”. Haha! Sim, todos somos gênios, mas cada um à sua maneira, em uma área específica. Não é simplesmente o fato de ele ser autista que o torna automaticamente uma inspiração. É o fato de ele ser uma pessoa, dotado de capacidades e incapacidades que o fazem genial, assim como também o fazem humano.

Acredito que precisamos, como sociedade, entender que cada um de nós tem um valor intrínseco, o qual independe do que somos ou fazemos. E, claro, precisamos superar a ideia de que só existe um padrão a ser seguido, uma forma única de estar/viver/sentir o mundo.

Bom…, eu disse que ia tentar quebrar uns paradigmas por aqui, né?  🙂 ♥

5 comentários em “Quebra de paradigmas

  1. Querida

    Finalmente consegui o tempo que eu imaginei, ler você exigiria e eu estava certa, leitura para ser feita com atenção e com tempo de saborear cada palavra. So far, so good… ainda faltam três textos e já estou achando uma pena que só faltem três textos.
    As afinidades são explicadas quando a gente se encontra e são mais explicadas ainda, quando a gente lê outra pessoa pensando que o texto representa tanto o que pensamos que poderiámos até assinar embaixo.
    Parabéns pela lucidez que tanta gente que viveu bem mais ainda não tem…
    Siga escrevendo! Eu seguirei me maravilhando ❤

    Curtido por 1 pessoa

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