“Mateus não fala”. Será?

O Mateus não fala. Nenhuma palavra. E a questão da comunicação é uma das perguntas mais frequentes que recebo: “Tá, ele não fala. Mas como vocês se comunicam com ele?”. Então eu digo, “olha, ele se comunica muito bem, mesmo sem falar”.

Vivemos em um mundo que, cada vez mais, faz uso da comunicação com palavras. A realidade virtual e a vida online proporcionaram que nos comunicássemos com as pessoas à distância. Hoje em dia, conversamos tudo pela Internet. Ficamos tempos sem ver um amigo ou colega (que, muitas vezes, mora até na mesma cidade) porque é bem mais fácil mandar mensagem por rede social e receber uma resposta (quase) automática.

Entretanto, a comunicação vai muito além das palavras. Existe o olhar, a linguagem corporal, a entonação da voz. Existem as palavras que são ditas, o jeito como elas são expressas e o modo como nosso interlocutor as entenderá. Logo, a comunicação é um sistema de trocas complexo, que depende de vários fatores. Por isso questiono a mim mesma quando digo que “o Mateus não fala”. Ele fala, do jeito dele. E, mesmo sem as palavras, ele se comunica bem, dentro das suas limitações.

Ele não fala, mas entende muito do que a gente diz. Ele tem dois códigos para dizer “sim” e “não”. Ele faz uso de figuras (PECS) para mostrar algo que queira. Ele mostra o que quer. Ele tem iniciativa de fazer as coisas. E uma das coisas mais importantes: ele fala muito com o olhar. Muito mesmo! Talvez um dos fatores que me levaram a amar fotografia de pessoas, os famosos retratos, foi o olhar do meu irmão. É profundo. É intenso. Cheio de sensibilidade e ternura.

Falar sobre o olhar pode até surpreender algumas pessoas, afinal, uma das informações mais divulgadas sobre os sinais do autismo é a ausência de contato visual. Realmente, é verdade. Muitos autistas têm dificuldade de olhar nos olhos e estabelecer contato. O Mateus também. Quando era menor tinha muito dificuldade em olhar para nós. Ainda hoje, quando está mais agitado ou em crise, também não consegue muito bem. Mas, se está em um momento tranquilo, você pode ter certeza: ele vai te olhar e querer se comunicar – de alguma forma – com você. Mesmo que seja com o canto do olho, mesmo que desvie o olhar em algum momento, acredite: todo mundo gosta de se comunicar, de se sentir parte, de estar presente.

12 comentários em ““Mateus não fala”. Será?

    1. Minha experiência com o Mateus é única. Compreendo que ele exige de nós mais atenção e profundidade, na sua pureza ele consegue transmitir no olhar o que realmente está sentindo. Como é bom ser amada por um autista, sem dúvida esse amor é incondicional.

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  1. Querida Fernanda, eu tenho um sobrinho autista, ele tem 8 anos e o nome dele é Charles( nós o chamamos carinhosamente de Charlinhos) Ultimamente ele tem tido crises muito intensas, tem me preocupado muito porque percebo a minha sobrinha, que é a mãe dele, sofrendo muito e sem saber o que fazer. Quero muito ajudá-los, descobrir técnicas, terapias ou maneiras de fazê-los sofrer menos. Sei que o autista tem crises, mas quero ter mais informações de pessoas que já passaram por isso, ou ainda passam, e trocar experiências para tornar a vida deles mais confortável. Obrigada por compartilhar sua experiência.

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  2. Fernanda, vc traduz com ternura nuances do autismo. Emociona ao leitor qdo relata fatos reais da convivência diária jto ao autista. E sabe por quê? Porque desvela a real aceitação ao próximo, deixa emergir o lado positivo da aprendizagem e conhecimento do outro, interage de coração aberto, com a maturidade de uma alma vivida e muito iluminada, apesar da pouca idade. Parabéns pelo blog, pelos textos lindos e carregados de devoção, por fazer parte do grupo de seres humanos que fazem a diferença na vida de muitas pessoas. Vocé e especial D+, sou sua fã e tiete!

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  3. Fernando, te entendo , conseguimos ler os olhos, sentir com o coração ver e saber que o corpo fala,que pessoas como teu irmão e nítido, claro porque falam com a alma.mas que quando falamos para pessoas, que não conseguem ter estas sensibilidades ,somos chamadas de louca, e neste momento estou desabafando, chorando,por ser chada assim hoje á tarde.
    .

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  4. Linda ela mensagem que escreveu do seu irmão. Curto tudo que vocês colocam dele. Passei a ama lo pelas fotos que vocês postam e pelas histórias. Meu filho também é Matheus, tem 10 anos e tem Síndrome de Asperger. A nossa comunicação vai muito além de palavras. Meu outro filho Miguel é também o melhor amigo do irmão. O seu amor e carinho por seu irmão é inspirador. Tenha certeza que você está fazendo a diferença com o seu blog. Obrigada. Quero muito conhecer o seu Mateus um dia.

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