Autismo e o preconceito

O termo “Autismo” é uma palavra que geralmente vem acompanhada de (pre)conceitos e noções generalizantes e do senso comum.  Ouvimos com frequência que é a pessoa que “não sabe se relacionar”, que “vive isolada”, que “não faz contato visual”. Alguns ouviram falar que são as crianças que andam nas pontas dos pés, fazem flapping com as mãos e que têm dificuldades no desenvolvimento da fala. Já outros pensam que são crianças superinteligentes, dotadas de inteligência inigualável, mas que, mesmo assim, apresentam dificuldades na interação social. Tudo isto pode ser verdade quando falamos de pessoas com autismo. Mas não é tudo. Por se tratar de um espectro (Transtorno do Espectro Autista – TEA), a manifestação dos sintomas é particular em cada um – e para dizer o óbvio: cada pessoa é única. Logo, é muito complicado generalizar as manifestações do TEA.

Além disso, por se tratar de um transtorno do neurodesenvolvimento, envolve as percepções médicas e sociais sobre o que seria o desenvolvimento neurotípico ou “normal” de uma criança. Muitos são os julgamentos morais no desenvolvimento infantil: a criança nasce e tem que engatinhar com x idade, andar com y idade, falar com tantos anos, etc, etc.  A lista é interminável. Se a criança não corresponde a determinadas expectativas sociais, já vai sendo rotulada como “diferente”.

Daí vêm os padrões que são esperados e as (pré)noções do que é considerado “normal”, conceito este que não existe de forma isolada, mas que surge na comparação, no convívio social e na interpretação que a sociedade faz do que é visto como “anormal”. Lembrando que a noção de normalidade nada mais é que o padrão em que a maioria se encaixa. Georges Canguilhem, importante médico e pesquisador em filosofia, aponta que a pessoa tida como “anormal” não é por “ausência de norma”, mas por “incapacidade de ser normativo”.  Tendo esse conceito em mente, quem sabe, a sociedade possa se abrir mais para o “diferente”, e, assim, consideraríamos melhor outras formas de vida – muitas, como as pessoas com autismo,  que por vezes, fogem do “padrão” preestabelecido, mas que tem muito (muito!) a nos ensinar.

***

Aproveitando a temática, estarei falando sobre o assunto na Feira do Livro de Porto Alegre com a palestra “Autismo, Estigma e Deficiência”. Será amanhã, dia 04/11, às 19h na Sala de Vídeo do Memorial do Rio Grande do Sul. A palestra faz parte da programação oficial dos Colóquios de Inclusão da Estação da Acessibilidade da Feira. Fica o convite! 🙂

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